A Escolha de Zé Carlos

Era fim de tarde de uma quarta feira chuvosa na cidade de São Paulo. José Carlos tomava um cafezinho tranquilamente na pequena copa do escritório de contabilidade em que trabalhava, no Tatuapé, quando sentiu uma agulhada diferente no peito. Gelou.
Ao virar-se para comentar aquela dor estranha com o moto boy da empresa que usava a maquina de xerox ao lado para reproduzir a apostila do supletivo, “tum”, caiu desacordado no tapetinho azul desbotado que ficava na entrada da copa.
Quando abriu os olhos José Carlos estava sentado numa sala, cheia de cadeiras acolchoadas e forradas com napa cinza claro.
Confuso, não tinha certeza de onde estava. Seria sala de espera de algum consultório? Hospital? Poupa-Tempo? Afinal de contas sua ultima lembrança era a do cafezinho.
Perguntou então para um velhinho ao lado: “Eu sei que isso pode parecer uma pergunta estranha, mas... que lugar é esse?”
O velhinho deu uma pequena gargalhada meio sem força e respondeu: “Setor de triagem”
- Triagem do que? Para que?
- Para o Céu!
Pobre José Carlos, infarto, fulminante! José Carlos agora era mais um personagem do além.
Em segundos passou por negação, inconformismo, desespero, pânico e sem saber o que fazer ficou ali, paralisado, com os olhos esbugalhados. Paralisia essa só interrompida quando um dos atendentes do setor de triagem chamou seu nome.
Ao chegar no balcão, o atendente meio perdido e constrangido disse:
- Sr. José Carlos, o senhor vai estar nos desculpando, em milhares e milhares de anos isso nunca ocorreu antes, mas é que... sua ficha não está sendo localizada, não temos como estar sabendo nada sobre o senhor e...
- Como assim meu amigo, do que você está falando? Perguntou ao atendente já em tom de leve irritação.
-Ó, então... é que... sem estar sabendo nada sobre o senhor, não temos como estar permitindo sua entrada no Céu, pelo fato de não termos como estar tendo certeza se o senhor está apto para tal. Mas ó... nosso supervisor já vai estar imediatamente falando com o diretor do setor para que possamos estar sabendo o procedimento nesse caso.
Meia hora depois, ou quem sabe muito mais, já que o tempo na eternidade passa de forma diferente, o supervisor chama José Carlos e diz:
- Olá Sr. José, a informação que recebemos de Seu Pedro, diretor geral do departamento é que o senhor está liberado para entrar, apesar de não existir nada que comprove sua bondade em nossos registros, também não existe nada que deponha contra o senhor e não seria justo impedir sua entrada no Céu, principalmente por um erro nosso. Por favor, a entrada fica...
De repente um corre corre invadiu a sala, parecendo uma ação da SWAT, interrompendo as explicações do surpevisor.
Vários anjos, de armas em punho apontavam para o lado de fora, quando um dos anjos que parecia ser o comandante grita: “Alto! Quem vem lá?”
Saindo das sombras, com as mãos para cima, uma criatura com chifres e barba de bode diz:
- Calma aí rapaziada, não vim aqui pra nenhuma batalha, só vim questionar uma decisão de vocês.
Antes de alguém perguntar qualquer coisa, o encardido foi continuando.
-Vejam bem senhores, vocês estão autorizando a entrada desse jovem senhor no Paraíso para não correr o risco de prejudicar um inocente, mas não tem nada também que certifique  que ele não seja um condenado, isso não é justiça e para encurtar logo esse debate que já está muito longo e não vai chegar a lugar nenhum, proponho que o próprio interessado no assunto decida o que quer fazer. Afinal, cadê o livre arbítrio tão comentado por aqui? O direito de escolha não era sagado?
Enquanto José Carlos pensava “esse cara fala mais que minha sogra” o restante da sala se entreolhava sem saber direito o que pensar. Então o comandante dos anjos tomou a frente e disse: “Está certo! Sr. José Carlos, o senhor pretende entrar ou prefere ir com... esse aí?”
De longe o “coisa ruim” já gritou:
- Ve lá heim Zeca! Antes de responder é melhor você se informar primeiro como é aí dentro, afinal, nunca ninguém voltou para contar.
Louco para mostrar serviço um dos atendentes já se adiantou, abriu um folder explicando: “Pois não Sr. José Carlos, aqui temos todas as informações sobre sua futura instalação”.
No folder havia fotos de uma aconchegante casinha, não muito grande, porem toda arrumada e bem decorada, uma boa varanda com vista para um lago de águas tranqüilas, um pequeno bosque na parte de trás, tudo com aparência de muito limpo e conservado.
-Poxa! Adorei! Empolgou-se Zé Carlos.
Imediatamente, o Belzebu aproximou-se com seu catálogo em mãos e falou:
- Com licença Zequinha, por favor não se precipite, conheça nossos aposentos, fique a vontade para olhar e decidir
No catálogo do Inferno 1 quarto com TV por assinatura, internet banda larga, telefone fixo, celular com pacote ilimitado de dados, direito a 200 torpedos por mês e o hospede ainda receberia na entrada um cartão de crédito gold internacional.
José Carlos, acostumado com o ritmo das grandes metrópoles se sentiu seduzido.
- Pô galera, foi mal, agradeço a gentileza de vocês, mas vou lá para o fogo eterno, deve ser quente mas meu quarto tem split 12 mil btus.
Para a tristeza geral do setor de triagens, José Carlos partiu com o fedorento sem nem mesmo se despedir.
Já no inferno, ao adentrar em seu novo aposento, Zé Carlos ouviu do seu locador.
- Tudo aí, conforme o combinado: TV por assinatura c/ 120 canais, celular, internet banda larga... Seu cartão de credito encontra-se em cima da mesinha de cabeceira.
- Legal, vou aproveitar que estou aqui e fazer uma ligação para Adolf Hitler. Disse Zé Carlos já pegando o celular.
- Mas... está sem sinal... não funciona? Espantou-se
- Opa! Tudo aqui funciona sim, apenas os serviços estão momentaneamente desabilitados, mas fica tranqüilo, está aqui os números de call-center da operadora do Cartão de Credito, da operadora de celular, da TV por assinatura e da empresa que fornece serviços de internet. Disse o capeta entregando o papel com os números para José Carlos.
- É só você pegar o telefone fixo ali no canto da sala e ligar para esses números solicitando a reabilitação dos serviços. Não esqueça de ter o CPF em mãos e o código do assinante, para agilizar o atendimento.
- Ãh? Como é? Disse Zé Carlos completamente atônito.
Então com 1 sorriso de satisfação estampado no rosto o diabo disse:
- Bem vindo ao inferno!



Escrito por Rogério Feltrin às 14h11
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Rogério Feltrin nasceu em Campinas-SP, em 1972, e é formado em Publicidade e Propaganda. Ainda pré-adolescente, descobriu o que realmente ama fazer: música. Já no primário, ingressou na fanfarra do Colégio Salesiano, onde estudou. Poucos anos depois, fundou com um grupo de amigos a banda Rosa de Saron.
É autor e co-autor de inúmeras canções da banda.
“ Rock, Fé e Poesia. 20 anos de Rosa de Saron narrados através de
suas músicas” é seu primeiro livro, lançado em 2008, em comemoração
pelos 20 anos de hist ória da banda.




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